Gazeta · 5 de julho de 2026

Céu Canto

O destino do asterisco no nome — ou: a fera no arbusto, o monstro no escuro, a poesia que ninguém vê.

Linguástico parece um erro; e Céu Canto, apesar de serem palavras já bem conhecidas nossas do português, nessa ordem e nesse contexto, parecem não fazer muito sentido, quiçá nenhum. A verdade é que Céu Canto Linguástico — esse nome estranho por inteiro — é um trocadilho baseado numa série de elementos da língua que estão sempre em constante e ardente acontecência, aqui inflamados e poéticos, dissecados a vivo no que a coisa tem de mais fundo. Não consigo pensar em um único jogo de linguagem que não seja acionado nessas poucas linhas. Jogos esses que raramente são acionados todos ao mesmo tempo, e é exatamente essa raridade que causa um certo desconforto.

Para mim, parece bastante análogo à pareidolia de reconhecer animais nas nuvens, ou "monstros" na silhueta deformada das roupas que deixamos jogadas numa cadeira e que, na alta madrugada, parecem nos encarar. Calma. É só o nosso cérebro que, por milhares e milhares de anos, aprendeu que valia a pena pressupor o pior de arbustos apenas prata-iluminados pela lua e farfalhando ao vento: pode muito bem ser só isso mesmo, mas era muito mais seguro bater em retirada rumo aos seus e contar sobre a fera de dentes enormes que você tem certeza de que viu na floresta. É essa mesma fome do cérebro por padrão — mesmo onde nenhum padrão existe — que a brincadeira do nome explora, de propósito.

Primeiro, os jogos fonéticos e a elasticidade da pronúncia.

Depois, a mesma grafia servindo para elementos de natureza distinta — como Canto, de Cantar (eu canto), que origina também a forma substantivada (que belo canto você tem!), assim como é o lugar nosso, um recanto, um reduto só seu: o seu canto.

Por fim, o mais experimental e praticamente hermético dos três, restrito somente ao uso que especifiquei aqui: o Linguástico. Ele brinca com todas as interfaces e, de quebra, com a pragmática: traz pedacinhos de informação que a gente, de alguma forma lá dentro do cérebro, interpreta quase de imediato como língua. São as associações sintáticas possíveis ao recombinar os aspectos identificados — e alucinados: a rima em -ástico, que remete a fantástico (o adjetivo) e a elástico, com toda a ideia de espaço de respiro (wiggle room) que essa palavra carrega.

Junte tudo e, a partir de palavras sem um nexo explícito entre si (e uma delas "errada"), nasce a imagem: que é na verdade fera no arbusto, monstro no escuro, poesia que ninguém vê; que esse seja seu canto de céu para cantar a sua língua.

E quanto ao asterisco — ao traço que não está aqui? Ele também foi engolido pela mesma fome, só que a de outra criatura. Houve um tempo em que eu teria posto um acento, um traço, algum floreio de próprio punho no nome. Mas o nome hoje precisa caber numa URL, passar por um teclado, ser lido por uma máquina antes de ser lido por você. A tecnologia atual me obrigou a escolher entre o traço artístico e a legibilidade da máquina — e, em vez de perder o traço, fiz dele uma porta. O asterisco é a cicatriz dessa escolha, esculpida de propósito: o lugar onde o floreio teria ficado, marcando que ele um dia esteve ali. Fazer arte dentro do que a máquina permite — talvez seja esse o verdadeiro jogo de linguagem da nossa época.

E essa é a tal da função poética: a língua que para de apontar para fora e passa a apontar para si mesma.