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Céu Canto Linguástico

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À primeira vista, Linguástico parece um erro; e Céu Canto, apesar de serem palavras já bem conhecidas nossas do português, nessa ordem e nesse contexto, parecem não fazer muito sentido, quiçá nenhum. A verdade é que Céu Canto Linguástico — esse nome estranho por inteiro — é um trocadilho baseado numa série de elementos da língua que estão sempre em constante e ardente acontecência, aqui inflamados e poéticos, com o microscópio ao dente, no que diz respeito à sapodissecância da coisa. Não consigo pensar em um único jogo de linguagem que não seja acionado nessas poucas linhas. Jogos esses que raramente são acionados todos ao mesmo tempo, e é exatamente essa raridade que causa um certo desconforto.

Para mim, parece bastante análogo à pareidolia de reconhecer animais nas nuvens, ou "monstros" na silhueta deformada das roupas que deixamos jogadas numa cadeira e que, na alta madrugada, parecem nos encarar. Calma. É só o nosso cérebro que, por milhares e milhares de anos, aprendeu que valia a pena pressupor o pior de arbustos apenas prata-iluminados pela lua e farfalhando ao vento: pode muito bem ser só isso mesmo, mas era muito mais seguro bater em retirada rumo aos seus e contar sobre a fera de dentes enormes que você tem certeza de que viu na floresta. É essa mesma fome do cérebro por padrão — mesmo onde nenhum padrão existe — que a brincadeira do nome explora, de propósito.

Primeiro, os jogos fonéticos e a elasticidade da pronúncia.

Depois, a mesma grafia servindo para elementos de natureza distinta — como Canto, de Cantar (eu canto), que origina também a forma substantivada (que belo canto você tem!), assim como é o lugar nosso, um recanto, um reduto só seu: o seu canto.

Por fim, o mais experimental e praticamente hermético dos três, restrito somente ao uso que especifiquei aqui: o Linguástico. Ele brinca com todas as interfaces e, de quebra, com a pragmática: traz pedacinhos de informação que a gente, de alguma forma lá dentro do cérebro, interpreta quase de imediato como língua. São as associações sintáticas possíveis ao recombinar os aspectos identificados — e alucinados: a rima em -ástico, que remete a fantástico (o adjetivo) e a elástico, com toda a ideia de espaço de respiro (wiggle room) que essa palavra carrega.

Junte tudo e, a partir de palavras sem um nexo explícito entre si (e uma delas "errada"), nasce a imagem: que é na verdade fera no arbusto, monstro no escuro, poesia que ninguém vê; que esse seja seu canto de céu para cantar a sua língua.

E essa é a tal da Metalinguagem.